ARTIGO: “Hip hop é compromisso”

Na semana passada, a revista Época trouxe uma matéria sobre os novos nomes do rap brasileiro (Emicida, Rael, Slim Rimografia, Flora Matos e outros). A reportagem disse que o rap virou pop, saiu do gueto. Causou polêmica entre quem faz parte do movimento hip hop, inclusive Daniel Ganjaman, que lançou parte dessa nova safra…

 
No nosso twitter (@perifasemove), a discussão também rolou solta. Nós, do projeto Periferia em Movimento, vimos a reportagem publicada com bons olhos até certo ponto. Afinal, essa ‘nova cara’ do rap pode ser uma porta de entrada para quem não conhece o movimento ainda. 
 
Nem todos pensam igual. E o nosso colega Anderson Benelli, artista e educador, escreveu um artigo pra expressar sua opinião – à qual nós reproduzimos abaixo. 
 

Hip Hop é COMPROMISSO

Resposta à matéria “O Rap saiu do gueto“, da revista época
Por Anderson Benelli
Nossa que matéria alienada e alienadora, ao que parece, escrita por quem não sabe nada da cultura Hip Hop, com um recorte que induz o conflito entre as diferentes vertentes do Rapbr.
 A diversidade musical, de ritmos e temas é, e sempre será, bem vinda, mas reduzir o RAP e o movimento Hip Hop a publicidade de marcas famosas, como diz a matéria, reforçando ainda mais a alienação do sistema capitalista consumista, “porque as minas gostam”, o tornando mais uma ferramenta de alienação no mercado da música e nas mãos da elite, é uma vergonha.
 Está claro, que a mídia e o mercado da música e seus produtores estão se esforçando para esvaziar o rap e o movimento Hip Hop através de uma higienização, como  fizeram com o samba, o tornando mais um produto de embalagem bonita na pratileira sem nada a dizer.
Além disso, tentam rachar o movimento incitando preconceito (uma das causas de engajamento da qual o movimento luta para eliminar) e mal estar entre as diferentes linhas de abordagem do RAP e seus artistas e militantes.
 É claro que a maneira de se fazer RAP mais radical, indignada e direta vai ser criticada. Pois ela fala diretamente ao povo oprimido, instigando à reflexão e conscientização sobre as injustiças sociais impostas por um sistema escravocrata. Essa conscientização é uma  ameaça a hegemonia da classe dominante que teme toda manifestação subversiva que propõe mudança. O que eles pretendem com isso? Abafar a voz do povo,  garantindo o sucesso da cultura do silêncio nos negando o direito a palavra. Mantendo assim, a estrutura de nosso sistema social.
Além disso, o amor e amizade sempre foram abordados no RAP durante toda década de 1990, toda e qualquer manifestação indignada com as injustiças sociais se funda no amor, mesmo que seja expressada de forma radical e rebelde.
 Criticar a linha mais pesada do RAP que deu a cara a tapa e sofreu com preconceitos tornando a visibilidade e o espaço que essa nova geração esta tendo possível, é no mínimo ingratidão.
Há inúmeras maneiras de se abordar um mesmo tema e todas elas são válidas não existe melhor ou pior cada um segue sua linha. E se as injustiças sociais existem, e não se enganem elas estão tão presentes quanto antes, elas devem ser tema, sim, de um movimento cultural que lutou e LUTA pela liberdade, igualdade de oportunidades e tratamento. Mesmo que abordada de formas diferentes. Quanto mais diversidade de temas e abordagens, dos velhos e mesmos problemas que persistem em nossa sociedade, melhor.
O único Rap que explora a miséria é aquele que sobe sustentado pelo povo e ao subir vira as costas para a periferia que tornou essa ascensão possível.
 A expansão da cultura Hip Hop para outras classes sociais é positiva e até natural, o que é negativo, é dizer que a cultura saiu do gueto, como sugere a matéria, é querer centralizar a cultura e passar a negar a periferia, quem fizer isso vai cometer um suícidio. O modismo passa.
  A diversidade e mudança, se ocorridas de forma natural, agregam valor e não devem ser criticadas, há espaço para todos.
 Agora, aos que estão se preocupando em vender seu peixe forçando uma mudança para se adaptar ao mercado e pregar a alienação consumista do capitalismo selvagem, ao invés de conscientização, digo que não foi rebolando que um grupo de RAP vendeu 500 mil cópias em uma semana e mais de 1 milhão e 500 mil cópias de um disco. E ao contrário do que alguns pensam, não foi graças a classe média, é bom lembrarmos que só na região do Jd. Angela na zona sul de São Paulo temos, aproximadamente, um milhão de habitantes.
 Em uma outra determinada matéria da revista Rollinstone certa vez li a declaração de um importante nome do RAP nacional que os empresários possibilitam aos artistas se apresentarem para o público. Confesso, me surpreendi com a “ingenuidade” da declaração.  Os empresários  contratam os artístas porque o público (da periferia diga-se de passagem) lota a casa gerando lucro pro mesmo, esse é o único motivo para os empresários e produtores contratarem o rap nacional, pagam pouco e ganham muito com isso.
 É bom lembrarmos ” O ser humano vive da dignidade e não da aparência”. Por isso, por favor, não vamos reduzir um movimento cultural pela liberdade a mais uma ferramenta de alienação e manipulação.
Lembrem-se: Cultura Hip Hop é COMPROMISSO com os injustiçados e oprimidos do mundo.
Comments
6 Responses to “ARTIGO: “Hip hop é compromisso””
  1. Obrigado Pedro, Sandro e Gabriel, nós por nós, vlw pela força.

  2. Guilherme Botelho disse:

    Bom Texto!

  3. Dj Sandro Lobato disse:

    Muito bom o texto onde aponta algumas das diferenças, caracteristicas (vamos assim observar no sistema) e “uma entidade forte” (como no primerio passo), rap nacional fundamentando usa existência, e tem muito mais.

  4. pedro disse:

    anderson, quando usou as aspas da dignidade humana ser mais importante que a aparência, matou a pau.

    outra coisa que me chamou atenção na matéria foi a declareção do emicida, dizendo que esta geração tornou o rap mais poético.

    oh!

    convido toda a periferia – a que inventa a língua – a dar uma grande risada coletiva a este desavergonhado.

  5. Nota do autor: Revisado dia 15/04.
    Em relação ao trecho se referindo a declaração de uma importante figura do Rap nacional. Confiei na memória e citei a Rollinstone como fonte. Depois de reler a matéria apurei que não foi nessa fonte que tive acesso a declaração e como não encontrei a fonte originária resolvi fazer essa pequena retratação o trecho do post em meu blog. Peço desculpas pelo equívoco.

    P.S Apesar do fato passar, aparentemente, desapercebido pelos leitores do post (ao menos ngm me chamou a atenção) resolvi assumir o erro através desta esta nota.

  6. Venho através deste agradecer pelo espaço e dizer que fico feliz em poder contribuir para o debate e com o periferia em movimento. Nós por Nós, Vlw msm. abraços

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