O poeta do gueto – parte I

A Cooperifa, movimento social da Zona Sul de São Paulo, vai realizar dia 21/04 pelo quarto ano seguido o evento “Poesia no Ar”, em que poetas amadores ou profissionais amarram suas obras em balões – que sobrevoam o céu da cidade.  É mais uma iniciativa do criador do movimento, o poeta marginal Sergio Vaz, que cresceu na periferia, não terminou os estudos mas encontrou nos versos uma forma de libertação do pensamento.

O projeto “Periferia em Movimento” apoia e admira a ideia de Vaz e, agora, divulgamos a ação Poesia no Ar. Portanto, publicamos aqui uma matéria feita ano passado por Thiago Borges para a revista experimental da faculdade. Na primeira parte, que segue abaixo, um perfil de Sergio Vaz. Na segunda parte, publicaremos uma entrevista feita com ele. Inspirem-se!


Pra manos e playboys

Nos rincões da maior cidade do País, um homem recita poesias com intensidade que chama a atenção de quem vive no centro.

Certa vez, o antropólogo Hermano Vianna falou que a periferia é o que há de mais pulsante na sociedade brasileira atual. É o lugar onde pessoas passaram por cima das adversidades, cansaram de esperar ajuda de fora e decidiram mostrar aquilo que sabem fazer. O resultado é um interesse crescente de quem mora em regiões mais abastadas pelo que surge às margens das grandes cidades.

Um claro exemplo desse movimento é a Cooperifa – Cooperativa de Cultura da Periferia, criada em 2001 pelo poeta Sergio Vaz, 44, e alguns amigos. Todas as quartas, a Vaz reúne cerca de 400 pessoas na zona sul de São Paulo para recitar e ouvir poesias. Há gente que vem da Vila Madalena, do Brooklin, do Centro, de outras periferias e até da Nigéria.

Vaz nasceu no vale do Jequitinhonha, região pobre de Minas Gerais, mas veio para São Paulo aos três anos de idade. Na capital paulista, sua família se instalou em outra região pobre: em Piraporinha, bairro vizinho a Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luis.

Palmeirense fanático, Vaz cresceu jogando bola na rua. E, como outros garotos da periferia, via crimes acontecerem na esquina da rua de casa. Mas a família sempre foi exemplo para ele. “Eu venho de uma família simples, mas nunca faltou livro na minha casa. Meu pai lia muito. Daí, começou o meu fascínio pela literatura”, conta.

Na prateleira, escritores como Ferreira Gullar e Gabriel García Marquez. “Eles me inspiravam porque era uma literatura que não era só literatura. Era uma literatura que queria mudar o mundo”.

Apesar de ter estudado somente até a oitava série, Vaz tem consciência de que a arte pode transformar o ser humano. Por isso, não se conformava com as condições de vida na sua região. “Eu pensava: ‘Meu, parece que eu tô em outro país. Parece a Palestina’”. E, numa época em que todo mundo queria se mudar da periferia, ele queria mudar a periferia. Foi aí que a Cooperifa começou a ganhar forma.

Em janeiro de 2001, ele e uns “trutas” se juntaram para fazer saraus no Garajão, um bar em Taboão da Serra, para onde ele se mudou e vive até hoje. O primeiro dia de sarau teve 17 pessoas, mas foi ganhando público com o passar do tempo. Um ano e meio depois, o bar foi vendido e a Cooperifa se instalou no Zé Batidão, outro bar, em Piraporinha, onde Vaz passou a infância e a adolescência.

Depois disso, surgiram eventos como a “Semana de Arte Moderna da Periferia”, convites para se apresentar em outras cidades do País e o título de maior sarau do Brasil. Vaz já publicou dois livros, “Colecionador de Pedras” e “Cooperifa – Antropofagia Periférica”. A mais nova investida dele é o cinema na laje, em que exibe filmes de graça para a comunidade. Não é à toa que  desperte curiosidade.

(continua)…

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